quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Filha, o que está acontecendo?

Geralmente, a função de um pai é básica, simples, não muito diferente da geral: sair pra trabalhar, colocar comida na mesa, dinheiro no bolso da mulher e dar bronca ou elogiar os filhos quando é necessário (e principalmente quando o assunto é a escola, que é o que mais lhe preocupa). Esse provavelmente é o perfil do seu pai. Mas não do meu.
Eu fiquei doente. Bem doente, e fazia tempo. Tomei tanto remédio que cheguei a ferir meu estômago, mas nada da minha saúde melhorar. Além de todo o mal estar, cansasso, febre, infecção de garganta, dor de cabeça, etc, minha cabeça estava a mil. Estava em período de provas, tive minha primeira briga séria com a minha mãe (séria mesmo), os shows mais incríveis que eu poderia assistir estavam todos sendo cancelados ou eram longe demais pra eu ir, e eu assistia as pessoas à minha volta realizarem seus sonhos, enquanto eu ainda estava empacada no meu. Estava stressada. Sabe quando você quer arrancar seu cérebro ou coração, sei la, pra fora, pra ver se as coisas melhoram? Tudo isso ajudou a me deixar mais depressiva, pois estar ao alcance de um sonho não é algo fácil de conquistar, não se pode ter a hora que quer, é algo que requer esforço e principalmente muita sorte, coisa que, infelizmente, me falta bastante. É claro que depois de anos a gente se acostuma, mas é uma coisa que ainda magoa.
Na semana passada, meu pai me chamou no quarto pra conversarmos. Já esperava que ele ia me acusar de ter bebido na festa de aniversário que eu fui, porque assim cortaria o efeito do antibiótico, o que teria me feito adoecer de novo. Cruzei o corredor, fui ao seu quarto. Me sentei na cama, ao seu lado. Estava escuro. Ele estava com as mãos unidas, e a cabeça baixa.

- Filha, o que está acontecendo? Sabe, essa sua doença... ela não está sarando.

Eu não havia entendido do que se tratava, mas a resposta de que eu não havia bebido estava na ponta da língua. Ele foi mais rápido:

- Você está passando por algum problema emocional?

Eu mexia nas teclas do celular, sem nem saber o que estava fazendo, só pensando em tudo que estava acontecendo aqueles dias. Tudo veio a cabeça, tudo mesmo, me lembrei de cada coisa, de cada momento que doei a minha vida, meu amor e o meu tempo pras pessoas que eu amo, e que infelizmente não dão o menor valor porque nem sabem que eu existo. Isso é muito difícil de se explicar, e muito mais de se entender, então nem tente se preferir. Então eu chorei, chorei muito, e eu disse que sim com a cabeça, que eu estava passando por problemas.

- Sabe filha, às vezes é melhor que a gente conte nossos problemas para as pessoas, porque assim a gente se alivia. É sobre algum garoto?

Quando ele disse garoto, eu me lembrei do Diego, que quem me conhece sabe que é uma pessoa muito especial e importante pra mim, e respondi ainda chorando:

- Sim.

- O que é?

- Ah pai...

Tentei dizer a verdade, mas não consegui

- Ah pai, eu tenho vergonha.

Ele raciocinou um tempo.

- Você já conversou sobre isso com a sua mãe, ou com sua irmã? Ou você acha que elas não vão te entender?

Meu pai chegou exatamente ao ponto: elas não vão me entender. E quem entenderia o que eu sinto por ele? Imagine tentar explicar o quanto você ama alguém que nem sabe que você existe, imagina tentar colocar na cabeça de alguém que isso é sincero... é difícil quando alguém consegue entender, é muito difícil. Respondi:

- Não vou falar com elas.

- Mas ele está muito perto de você, é uma pessoa que você convive de perto? Na escola?

Me subiu um puxão na garganta que me arrancou outras lágrimas.

- Não pai, o problema é que ele está longe demais.

Era a primeira vez que eu falava sobre isso com alguém de frente pra mim.

- Filha, eu já tive esses problemas de amor... Você pode contar pra mim. Pode contar comigo. Eu sou uma pessoa bem vivida, já passei por um milhão de coisas por amor e não vou esconder nada de você.

Olhei pra ele, e vi meu pai chorar pela primeira vez.

- Eu sou seu pai, eu não vou rir de você, não vou achar você uma tonta, e nem achar que o que você sente é besteira, não vou!

Será, pai? Será que você me entenderia? Será que você não daria risada de mim por dentro? Será que o senhor realmente entenderia que é de verdade e que eu tenho certeza do que eu sinto?
Confesso que foi nesse momento que eu tive vontade de dizer a verdade, mas eu não consegui.

- Pode ter certeza que nosso melhor amigo está sempre na nossa casa... Em nenhum outro lugar você vai encontrar um amigo melhor do que eu, ou que sua mãe.

Abaixei a cabeça, ainda chorando, e pensando em tudo o que ele disse. Eu queria contar pra ele o que eu estava sentindo, queria mesmo, mas tive muita vergonha. Não deveria, pois ele me prometeu que não iria achar besteira. Mas quem garante?
Voltei pro meu quarto, e fiquei pensando se isso tudo vale a pena... Será que vale a pena me dedicar dessa forma? Será que um dia se eu chegar na frente dos cinco, dizer oi e cumprimentar, eles vão saber que eu amo eles? Será que eu se eu passar 5 minutos tentando falar com eles, eles vão saber o que eu to sentindo na hora? Será que se eu tentar explicar pra eles em um segundo a importancia deles na minha vida dizendo "eu te amo", eles vão acreditar? E pensei... pensei... E se não? E se eles NUNCA souberem que isso é verdadeiro, que eu gosto deles de verdade, que faz dois anos que eu escuto as músicas, que eu fico emocionada com qualquer coisa que eles falam, que eles fazem? Ainda assim isso não vai adiantar... Nunca vai adiantar. É ridículo, você não desgosta de uma pessoa do nada, só porque acha que não vale a pena ou que ela não sabe o que você sente, infelizmente (ou felizmente) não tem como. Então pensei de novo... pensei... "Deus, o que eu faço agora? Me ajude!" aí lembrei que Deus não pode fazer nada. Não é ele quem manda no coração da gente, amor é uma coisa espontânea, e ele nasce e morre sem a intervenção de ninguém.
Pensei um milhão de coisas, pensei em um milhão de situações e nas inúmeras possibilidades de qual vai ser o fim disso tudo. Não é que eu queira desistir.. entende? É só que machuca muito. Quando você lê isso você pensa "que clichê esse negócio de que sentimento machuca, aff". É, você deve saber muito bem o que é quando um sentimento te machuca, porque mesmo sendo uma frase clichê, ele te incomoda de verdade. Não é que eu queira desistir.. Eu só estou tentando deixar pra trás uma esperança totalmente desesperançosa, desde que os encontrei eu só ando em círculos e isso cansa muito, não fisicamente. Mas me cansa, cansa minha cabeça, cansa meu coração.. Quando você lê isso você pensa "puts, toda fã fala a mesma merda, você não é diferente". É, talvez eu não seja mesmo... nem sei porque eu escrevi tudo isso, nada disso vale nada mesmo, ninguém que ler tudo isso vai acreditar e nem vai entender.. ah quer saber... vou dormir.

Pai...
Obrigada simplesmente por querer me entender.
Eu te amo, e a sua reciprocidade basta.